Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

Diário Medicina Preventiva

Uma intensa viagem pelo dia-a-dia de uma estudante de Medicina e, além disso, algumas indicações sobre a importância da prevenção para preservarmos a nossa saúde.

08.Mai.07

TRADIÇÃO ACADÉMICA

 

A Tradição Académica representa a verdadeira alma do estudante, é um símbolo do nosso país, um traço do nosso espírito.

A tradição académica não se esgota na praxe, é a vivência sentida de uma história, de uma cultura.

Em 1228, época marcada pela evolução económica, social e cultural, D. Dinis fundou os Estudos Superiores de Lisboa, aprovados pelo Papa Nicolau IV, em 1290. Devido a distúrbios entre estudantes e a população, em 1307, o rei pede ao Papa para mudar as instalações de cidade, o que só acontecerá em 1308, tornando-se assim a Universidade de Coimbra numa das mais antigas da Europa. D. Dinis ordenou horas de estudo e de recolher. Caso os estudantes não cumprissem eram detidos pela polícia universitária. Como em qualquer outra instituição, foi implementada uma hierarquia, tendo por base o número de anos que o estudante frequenta. Estas e outras ordens que foram instituídas serviriam de base para a praxe. Por exemplo, com a extinção da polícia universitária, surgiram as trupes. A prática da praxe teve alguns interregnos devido a condições políticas, económicas e sociais, como a proclamação da República e a 1 Guerra Mundial.

Os universitários foram, por diversas vezes, exemplo de um espírito inconformista e reivindicativo. Relembremos: o movimento estudantil no "Maio de 68"; o protesto contra a discriminação sexual nas universidades; no início dos anos 60, acções de apoio ao movimento de negros, de defesa do meio ambiente e contra a guerra nuclear; luta contra o salazarismo, a guerra colonial, o regime racista da África do Sul e o fascismo Marcelista; contestação às PGA's e às propinas. Os estudantes estiveram sempre na frente, prontos a lutar pelos seus ideais, por aquilo em que acreditavam.

Durante a ditadura, a praxe teve altos e baixos devido à forte contestação estudantil e à reacção que suscitava. Muitos estudantes sofreram represálias, o que culminou no Luto Académico, em 1969, como forma de protesto à repressão, os universitários suspenderam as actividades académicas. Com o fim do luto, iniciou-se em 1979, em Coimbra, a Ordem da Praxe e Academia por um grupo de Veteranos preocupados com a "perseguição política" e os exageros que caracterizavam a reactiva praxe de Coimbra. Esta expandiu-se por território nacional e internacional (Espanha, Itália, França, Reino Unido, Irlanda e EUA). Actualmente, existem movimentos anti-praxe, nomeadamente, o MATA (Movimento Anti-Tradição Académica) e o Antípodas que, alegando tratar-se de um atentado à dignidade e à integridade física e psicológica, pretendem abolir a praxe. Estes fazem referência ao artigo 37º da Constituição da República Portuguesa, cujo paradigma se pauta pelo direito à livre expressão e garante o respeito pela dignidade da pessoa humana. Apesar das inúmeras tentativas de o abolir, o espírito académico tem resistido aos inúmeros obstáculos.

O seu símbolo máximo é o traje académico e que foi objecto de significativas transformações, no talhe e no aspecto, ao longo dos anos. Reza a história que, no séc.XVI, é introduzida no vestuário a calça. O Clero que dominava o ensino, considerou tal indumentária imprópria, defendendo o uso de uma batina até aos pés, que passou a usar, assim como os estudantes e professores universitários.

Quando é publicado o I Código da Praxe Académica, em 1957, o traje passa a ser uma entidade uniformizadora, permitindo a normalização de estatutos sociais e económicos de todos os estudantes. As normas são explícitas, todas as etiquetas devem ser removidas para não haver distinções, não se pode evidenciar sinais de riqueza, deve-se ser discreto. O traje representa humildade e respeito, deve ser usado com orgulho, nunca com arrogância ou vaidade. Trajados todos são iguais, as pessoas apenas se distinguem pelo que valem, não pelo que têm. Podemos concluir que entre iguais são ímpares, únicos, acreditando-se que daí advém a simbologia do ímpar na praxe. O traje feminino surgiu no Porto.

O "rasganço" após a licenciatura deve ter surgido com a "Farraparia" que durou até 1910, era feita na Faculdade de Direito de Coimbra, após o anúncio do último dia de aulas, em que os alunos do 1º ano esperavam os do 5º, perseguindo-os com a finalidade de lhes rasgar as batinas e as capas. Os cortes na capa têm um significado, são feitos pela família (lado esquerdo), amigos (lado direito) e pelo(a) companheiro(a) (centro).

As fitas são uma consequência da pasta dos meados do século passado que tinha três laços de fita da cor da Faculdade para prender as duas partes que a compunham. A tradição de as queimar remonta à década de 50, do séc. XIX. Mais tarde, vieram as Festas do Ponto (Latadas, Centenários da Sebenta e Enterro do Grau). O primeiro acto conhecido das festas ligadas à queima das fitas, já com programa estruturado, data de 1901. A partir de 1926, os grelos passam a queimar-se no "penico", motivo pelo qual é símbolo praxístico; como a tesoura, que as trupes usam para o rapanço; a moca; e a colher, que está relacionada com o nascimento das tunas, que se deu em Espanha, onde os estudantes que eram muito pobres, andavam de porta em porta, a tocar e a cantar, com uma colher a pedir sopa. As fitas, assim como a semente, a nabiça, o grelo, a cartola e a bengala, são insígnias, representando o ano que se frequenta.

Após vários incidentes, durante as semanas da queima, por actos menos próprios de parte a parte, surge uma novidade. A Faculdade de Medicina, na qualidade da mais antiga do Porto, em parceria com Letras e Ciências, está a iniciar na praxe cerca de 60 pessoas de Arquitectura, do 1º ao 5º ano. O saldo, segundo os que aderiram, "é positivo pois permite conhecer mais gente numa semana do que em todo o curso, no verdadeiro sentido da palavra, pois há um forte companheirismo". Acerca das reacções dos restantes, "há ainda um longo caminho a percorrer até que o facto seja, simplesmente, tido em consideração, mais por parte de professores do que dos alunos. Há ideias pré-concebidas, muitos nem tentam saber do que se trata, negando algo à partida. Os media têm o seu quinhão de culpa ao noticiar apenas o lado negativo por ser o mais rentável. Apesar disso, admitem que, "por vezes, há abusos de autoridade que se traduzem em incidentes graves." Mal interpretada por uns, mal exercida por outros, a praxe académica é e sempre será um terna controverso, objecto de debate. Dizem que para quem não acredita nenhuma explicação é possível e para quem acredita nenhuma explicação é necessária. Talvez seja isso que acontece com a praxe, para quem não a vive é inconcebível, mas para quem a vive é incontestável.

O que é certo é que aproveitaremos estes 6 anos de curso para viver intensamente a tradição académica.

Porque acredito nela, porque sei que ela representa valores estudantis inabaláveis, ideais que nunca pdoerão ser calados, forças que podem vencer sempre! A tradição académica é o que somos, é o que nos traz aqui. A vida passa depressa demais para que a evitemos, para que fujamos de tudo o que tem para nos oferecer. E acredito plenamente que a nossa vivência da tradição académica será certamente algo que nunca esqueceremos pela vida fora.

Por isso, e como me disseram aquando do traçar da capa: “Nunca deixes morrer a tradição académica!”

 

“Além das aptidões e das qualidades herdadas,

 é a tradição que faz de nós aquilo que somos.”

Albert Einstein

2 comentários

Comentar post